O Congresso Nacional aprovou nesta semana mais um de seus escandalosos aumentos. Com o número abusivo proveniente de algum cálculo incompreensível, os parlamentares aumentaram seus salários em 62%. Escorados subrepticiamente na Constituição Federal, ampliaram a dívida pública sem apresentar a receita para o gasto.
A desfaçatez está na acintosa estratégia de vir a justificar o pacote de bondade do aumento do salário mínimo em 2011 com o dado por eles a eles mesmos agora em dezembro. Contudo, a base de comparação é espúria. O poder de compra de um parlamentar, que ganha mais de R$ 11 mil, sofre menor impacto que o daquele que recebe R$ 510. Inclusive os números apresentados recentemente pela Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), que aponta crescimento na compra de produtos eletrônicos pela classe C, enrustem um perigo.
De acordo com dados do Sistema de Proteção ao Crédito (SPC), a taxa de inadimplência em novembro último foi maior para pequenas dívidas, inferiores a R$ 250 - valor de quase meio salário mínimo federal. Cerca de 78% das novas inscrições de pessoas físicas no SPC estiveram abaixo dessa faixa. Em miúdos, o capital dos mais pobres parece estar se esfarelando em meio a pressão dos juros para o mercado consumidor.
Enquanto isso, a onda de microcrédito, filão que alguns bancos têm descoberto e explorado, é mais um atrativo para seus lucros constantes e juros exorbitantes. O ardil armado serve como fantasia para iludir a população de baixa renda com a proposta de ingressar no empresariado. A contrapartida é que, em caso de a economia perder fôlego, as cobranças serão diluídas por entre os próprios pobres que se autofinanciam.
A síntese é que a população de baixa renda continua a pagar as altas contas da máquina pública, que consome mais de 70% do arrecadado, porém, produzir bem algum. Além disso, o País precisa de reformas profundas e a mais importante delas é a do caráter dos políticos que representam apenas a si mesmos e ao seus interesses espúrios em vez de servirem aquele que os elegeram, o povo brasileiro. Aliás, tal reforma deve vir do povo, que ainda não prestou a devida atenção a quem tem confiado seu precioso voto.


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