sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Riso na política

Sob as sombras do voto proporcional, famosos e personalidades exóticas são estrategicamente arregimentados ou aliciados, assim como se deixam arregimentar e aliciar. Isso faz parte da artimanha dos partidos e é uma tentativa calculada, garantida pela lei eleitoral, inclusive, para obter o maior número de vagas nas Casas Legislativas. Surpreende, antes disso, eleitores e eleitoras manifestarem intenção de voto para figuras que se dizem abertamente incapazes de cumprir com as tarefas exigidas para as funções a que concorrem.

A risada parca, exibida durante o horário eleitoral, é de péssimo gosto. Para quem, após uma jornada de trabalho, espera pelo menos o respeito daqueles que deveriam tratar de propostas e projetos para o desenvolvimento do País, a sátira soa como terror. O humor com tempo cronometrado, uma espécie ruim de stand up comedy, não passa de chacota pública e com dinheiro público. É desperdício de tempo e de recursos de milhões de cidadãs e cidadãos.

A pressuposição lógica é de que quando uma pessoa almeja a determinado cargo, ela tenha aptidão para a vaga a que se propõe. Imagine, por exemplo, que alguém se disponha à vaga de motorista de ônibus. A exigência óbvia é que seja habilitado e saiba dirigir. Por eliminação simples, quem não tiver tais requisitos está fora da concorrência. Ao estender tal raciocínio aos candidatos, a discussão ganha caráter complexo por haver elementos cruciais à democracia e à ideia de república, sem, entretanto, perder a relevância.

Por exemplo, alguns dos pontos a pensar e refletir seriamente são: Deve a sociedade ser tecnocrata? Ela deve ser liderada pelos mais capazes (segundo qual padrão? quais seriam as aptidões necessárias?) ou obrigatoriamente precisa ter pessoas de todas as classes e/ou segmentos sociais para ser possivelmente representada? O momento para levantar tais pontos está mais do que maduro. Em contrapartida, uma reforma política coerente continua em atraso.

O escândalo é a anestesia social. Eis o ultraje nesta confusão toda. Parece, ainda, chocar-se contra uma vontade de moralização da política brasileira pregada pela maioria da população. Sim, felizmente, o regime democrático adotado no Brasil protege tal liberdade de expressão. Isto, no entanto, implica em consequências, sejam elas positivas ou negativas. O perigo é constatar que a incompetência, ou seja, a não aptidão, atribuída a alguns candidatos e candidatas - que a confessam ou não - está nos eleitores e nas eleitoras que deixam de votar e se empenhar para melhorar o Brasil.

Texto publicado em Jornalismo Político em 26/08/2010.

1 reflexões:

Fabis Matrone disse...

A que me mata é a Cameron, essa acaba comigo rs

Como vai meu nobre amigo?

Abraços