sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Décima Vez (Conto)

(Conto – Parte 2 de 2)

(Continuação)


Me lancei sobre o banco. Só eu e o banco. Nem relógio nem livro nem nada que pudesse me atrapalhar, muito embora não sei em que ou o que me atrapalharia.

O banco era de madeira, não sei qual tipo de madeira. Era madeira escura, marrom. Os detalhes dos pés eram brancos, de ferro – estavam desgastados pelo tempo, pela chuva. Não sei quem o pôs ali. Mas estavam lá. Estava esperando por mim. E naquele banco eu comecei a sentar e a ver a vida passar. A vida de outros e a minha. Era um banco. Era a vida... E eu. Já era a décima vez.


No começo, eu não pensava em nada. Apenas observava, apenas olhava, apenas via. Sem entender, sem pensar, sem imaginar por que pessoas iam e vinham, por que gatos corriam atrás de pássaros, por que cachorros latiam, por que carros desciam e subiam, por que tinha dia que era frio e noutro era calor, por que tinha dia que havia mais pessoas outros nem tanto. Eu apenas estava ali. Me gastando e deixando me gastar. Era minha vida. Já era a décima vez.

Um dia percebi que a solidão me bateu. Eu estava no banco. Os carros iam e vinham. As pessoas subiam e desciam. Os cachorros, os pássaros, os gatos faziam seus ruídos junto ao farfalhar das folhas das árvores incitadas pelos ventos. Não havia sol. Ele estava escondido por trás de nuvens. E eu me senti só. E estava só... e já era a décima vez.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Algumas frases espalhadas em 2008

"O artista não agüentou e fez um gesto para encerrar o encontro".

- Num dos 13 dias da performance de Maurício Ianês na Bienal de São Paulo, onde ficou sem roupas e comida, um menino ficou 40 minutos sem desviar os olhos dos do artista e não falou uma palavra sequer. Por Silas Martí na Folha.


"O ano que vem tem que ser melhor. Vou roubar pra caramba".

- De um dos integrantes do tráfico na região da zona sul da capital paulista.


"For every minute you are sad, you lose 60 seconds of happines"
Tradução: Para cada minuto que está triste, você perde 60 segundos de felicidade.

- Numa camiseta vestida por um senhor de aproximadamente 60 anos num ônibus da zona sul, São Paulo.


"... o blog é a segunda melhor forma de comunicação que existe. Só perde para o sexo".

- Marcelo Tas em seu blog.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Politicando

Por Roberto Coelho*

Antonio Gramsci nos fala (em seus textos é claro) em um jornalismo "integral" um tipo de profissionalismo que não somente pretenda satisfazer todas as necessidades, mas que pretenda criar necessidades e assim gerar sentido no leitor.

Fala sobre um texto de atividade publicístico-editorial que ocorre mecanicamente nas redações dos grandes jornais. Sugere uma orientação cultural por agrupamento na idéia de construção social o que no mundo mercadológico é realizado visando o lucro das empresas e não a distribuição de conhecimento(s).

Verifica-se uma adequação de premissas de um plano de metas a ser atingida. Jornalismo em outras palavra "um produto à venda" (nas palavras de Cremilda Medina).

Nos últimos meses temos visto, e lido, o acompanhamento da crise econômica mundial e suas repercussões na "República Tropical das Bananas" o que mais nos admira é o completo seguimento da Agenda Setting ; ninguém tomou atenção ao problema dos juros, do controle imperial dos bancos nacionais tupiniquins, dos contratos fantásticos do governo com empresas de construção civil e os acordos entre empresários governísticos e suas cúpulas (ou cópulas) autárquicas. Passamos ao largo do problema analisando o mundo e repercutindo em casa. Fizemos a lição direitinho e só! A publicidade oficial está completa! Aqui será apenas uma marola; nunca na história deste país tivemos algo igual! Os jornais continuam sua "commedia dell'arte" tomando partido de quem senta no poder e assim o mundo continua a ser bem informado.

Direto da terceira margem do rio.

* Doutor em História e Mestre em Comunicação e Semiótica (
especialmente para o Polipensamento)

Farmacêuticas indicam medicação para burlar multa de trânsito

Passou pelo ano - n°8

Duas farmácias no Rio Grande do Sul comercializavam "remédio" antibafômetro. O elixir proposto visava enganar os aparelhos durante verificação da polícia. O anúncio garantia passagem tranqüila pelo teste. As farmacêuticas foram suspensas pelo Conselho Regional de Farmácias (CRF).

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Justiça condena morto a cumprir pena

Passou pelo ano - n°7

A lentidão - ou, conforme o politicamente correto -, a morosidade da execução dos processos judiciários promoveu uma injustiça. Afonso Benedito Severiano Júnior, o "maníaco de Higienópolis", teve a pena revista para 5 anos e meio, porém, a senteça saiu seis meses após o falecimento do réu.

Apesar de morto desde abril, o julgamento continuou a tramitação em primeira e em segunda instância simplesmente por falta de comunicação informatizada entre os órgãos públicos.

Relatórios da ONU e da Unicef mostram dados preocupantes

Passou pelo ano - n°6

Dos levantamentos elaborados pela Organização das Nações Unidas (ONU), um apresentou número de 48 mil homícidios provocado pela violência urbana no Brasil.

Outro apontou que 20 mil crianças morrem de fome por dia no mundo - destacam-se as vítimas no continente africano em países como Etiópia e Sudão.

Segundo a Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) e a FAO (Fundo das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação), a produção de alimentos é mais do que o suficiente para alimentar os 6 bilhões de pessoas do planeta.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Balancetes e balanços

Contagem regressiva para o término deste bissexto, a macroeconomia, refém do mercado global, tem em sua irmã caçula, a microeconomia, trânsito livre e visível pelos shopping centers brasileiros.

Na bolsa de valores, a cotação do dólar a R$ 2,40 - a promover a desvalorização da moeda nacional - e o barril de petróleo na casa dos R$ 42 - ainda que o pânico se instaure devido confrontos na Faixa de Gaza - mantém a situação econômica do País como, no mínimo, delicada.

O risco Brasil, que provocou alvoroço internacional no início do ano e trouxe propostas de investimentos massivos de capital estrangeiro, está em torno de 450 pontos - 2,5 vezes maior que a medição de junho. Muito embora o número perca força com a quebra de bancos como o Lehman Brothers.

O corte significativo no Orçamento da União para os investimentos do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) em 2009 é preocupante. Nos acréscimos, o Fundo Soberano é cavalo de batalha do momento para as eleições de 2010 - como qualquer projeto de grandes dimensões a surgir. E por aí se vai - ou se foi - 2008.

Décima Vez (Conto)

(Conto – Parte 1 de 2)

Já era a décima vez. O décimo é tudo continuava a mesma coisa. Depois de muito tempo, o tempo parecia ser o mesmo. O objeto parecia o mesmo. As coisas pouco mudaram. Automóveis, pessoas, sons, temperaturas e cores. Era a décima vez. E continuava lá.

Nos meus finais de semana escolhi um banco. Num lugar aonde as pessoas iam e vinham, onde as coisas aconteciam e onde, naquele banco, eu podia me sentar e olhar e, apesar de estar lá, não ser notado.

Era ali, ali onde se passava agora a décima vez.

Nas primeiras vezes tinha muita coisa pra observar: pássaros, cachorros, gatos, folhas, flores, plantas, pessoas – apressadas, novas, velhas, sabidas, bem-vestidas, mal-vestidas, estranhas, esquisitas. Na segunda vez, na terceira vez... Depois, tudo ficou do mesmo jeito e eu ainda continuava sentado no banco nos meus finais de semana. Era um ritual.


Eu esperava chegar o fim de semana e acordava cedo após colocar o relógio pra despertar às 8h da manhã. Tomava meu banho e colocava minha melhor roupa, passava meu perfume, atravessa a cidade e ia pro banco. Aquele banco estava esperando por mim. Desde o princípio eu vi que tinha uma atração entre mim e ele. Não sabia bem o que era. Ainda não sei. Apesar de já serem dez vezes...

(Continua)